Não tenho medo de expor os meus medos... Por mais patético que sejam, eles estão aqui. Mas um eu deixei preso entre as ferragens da semana passada. Eu, parado diante dela, e ela ali, me fazendo chorar, tremer e como que de costume me fazendo pequeno. Fiquei aproximadamente umas três horas olhando pra ela. A montanha russa... Pode parecer patético para os demais, mas quem me conhece pelo menos um pouco, sabe o quanto tenho medo de altura. Nem na janela do meu próprio apartamento eu fico por mais de um minuto... Com a boca seca e o coração acelerado fui até a fila do brinquedo, mas não por vontade própria, estava sendo empurrado por um grande amigo meu, me sentei dentre as claustrofóbicas cadeiras, no meio, e fechei os olhos, quando vi que o brinquedo se movimentava não hesitei em abri-los e gritar minha desistência para a mulher que o operava. Voltei para minha posição inicial, duas horas mais tarde, estava lá outra vez, só que agora por vontade própria, entrei no brinquedo e fechei os olhos, quando o carrinho começou a interminável subida, meu coração acelerou o dobro da primeira vez, e desta vez não era somente a boca que estava seca, mas todo meu interior... Com os olhos fechados e também secos, comecei a chorar de uma forma jamais vista por mim, sem som, e com pequenas contrações musculares... Quando finalmente o carrinho parou foi que todos os meus órgãos, como que em um reanimar, voltaram a funcionar. Abri os olhos e sai dali com a sensação de que nada poderia me deter... Depois da quinta vez que andei na montanha russa, abri os olhos, e pude ver finalmente do que se tratava aquele frio na barriga... Andei aproximadamente umas 25 vezes, em todas as poltronas, do primeiro ao último carro... Em casa, parei pra pensar que talvez o medo só existisse realmente para ser superado... E pelo menos um deles consegui deixar pra trás... Agora só falta superar o medo de gafanhoto, de ficar sozinho...
Eu gosto de ver o tempo passar... Não, não gosto... ?
Gosto de ver tudo se modificando ao meu redor... Não, não gosto... ?
Pois de que serve uma roda gigante parada? Ontem não consegui dormir direito com medo de uma mariposa que estava na parede do quarto... Provavelmente ela estava parada, porque eu também estava parado, olhando com os olhos estalados, estáticos, com medo de que ela com um vôo rasante me atacasse como um kamikaze agnótico. Desejei com todas as forças que ela morresse... Hoje acordo, e ela ainda está imóvel, só que agora no chão... Sem vida... Na verdade eu não queria que ela morresse... Queria apenas que ela tivesse o minimo de bom senso e fosse embora... Sei lá... Ela se foi, e eu continuo aqui esperando mais uma mariposa, um gafanhoto, uma barata, ou qualquer outra coisa que me faça sentir vivo... Sabe do que gosto mesmo? Que as coisas se vão para dar espaço a outras que vem... Ou será que esse é o meu medo? Ah... Deixa pra lá... Já passou! ?
Ela estava deitada na cama enquanto ele procurava por algo que não sabia, revirou gavetas, copos, geladeira... A cada minuto que passava o silêncio se espalhava pelo ar... Parado, o ar estava parado, o suor saia lentamente dos microscópicos orifícios da derme.
Ela deitada na cama e ele procurando algo que não sabia o que era... Ela se levantou e começou a andar pelo teto... Procurava no tampo de madeira compensada... As cores acinzentadas do quarto se confundiam com os pés da pequena que agora corria em círculos pelo teto... Seus dedos trêmulos corriam os potes de margarina embolorada... Sem pensar muito enfiou o braço esquerdo garganta a baixo e retirou um pedaço de vidro... Tossindo começou a soltar pequenos pedaços de espelhos pela boca, olhou para seu vômito e começou a se enxergar... Entre detritos de alimentos ele se enxergou... Ela para de correr pelo teto e senta-se ao lado do ventilador de teto que está com uma das hélices quebrada... Ele começa a soltar pedaços de si mesmo... Ela começa a rir ironicamente enquanto a hélice quebrada bate em seu calcanhar esquerdo... Sangra, ela ri ainda mais... Tudo começou errado... Acho que a culpa é sua... É... Eu também acho que a culpa é sua... Acho que você deveria melhorar... É, eu também acho que você deveria melhorar... Ele começa a chicotear a pequena... Ela chora de pena de si mesma... Agora me chicoteia... Sim... Ele começa a chorar de pena de si mesmo... Você às vezes é um saco... É, você também às vezes é um saco... Pare de repetir o que digo... Você também pare de repetir o que digo... Você não sabe do que preciso... Você... Também não sabe do que preciso... Você me questiona demais... Você me questiona demais... Deixe-me em paz... Continue o que estava fazendo... Está bem, só se você prometer que vai continuar também... Vamos... O que? Como das outras vezes... Fingir que está tudo bem? Não... Fingir que está tudo bem...
Sim... Claro que eu te amo... Quero dizer, pelo menos um pouco... Mas por que quer saber?
Por nada...
Fala...
Por nada...
Eu te amo muito...
Silêncio.
Onde você estava ontem à noite?
Eu já disse que te amo...
Então me responde...
Eu te amo muito amor...
Onde?
Eu?
Estava?
Te amo...
Onde você estava? Porra!
Eu... Bem, fui atacada por uma manada de elefantes azuis que circulavam pela avenida Paulista, devem ter sido deixados pelos marcianos de que lhe falei na semana passada...
Na avenida Paulista? Elefantes... Marcianos...
Sim... (Começa a chorar)
Acho que você precisa se tratar...
Não acredita em mim? Sabia...Você não me ama mais...
Como afirmar?Deixo minhas inúteis exclamações de lado, para perguntar a todos que quiserem responder... Liberdade... Você pode me responder o que é a liberdade? Você pode me responder o que é a vida, a fé, a política, ou algo mais concreto, embora isento de exclamações, o que diziam os filósofos? O que afirmavam eles? Uma obra de arte só existe para que a enxerguem de maneiras diferentes, questionando algo, ou alguém. Ao contrário não seria arte, e sim um objeto de vaidade, nado-morto, apático. De que serve um filósofo que se diz certo em suas teorias? Que as exclamações sejam contestadoras. De que servem suas exclamações copiadas de idéias já pensadas e às vezes abandonadas pelo mesmo que as idealizou? De que servem? De que servem suas conclusões escusáveis? Você pode me explicar? A arte determinista nada mais do que um objeto decorativo em casa de burguês... Toda obra se modifica de acordo com os olhos que a vêem... Ou não? Toda obra deve se modificar de acordo com o tempo, espaço e acima de tudo sobre as questões em que vivemos agora... O porque continuar questionando ícones mortos? Ideais mumificados? Que se modifiquem as obras. Você pode me explicar o mundo em que vivo? Você pode me explicar? Acho acima de tudo que é isso que querem, enquanto comem nossos olhos, estamos voltados para o passado... Tudo se torna inútil para o indivíduo que está estupidamente se perguntando ainda se devemos ou não inventar a roda... Ou não?
Ontem, 10/12/2007, foi dia Internacional dos direitos humanos, só me resta perguntar;
De quais?
Hoje foi dia de quê?
De cão?
Luciano Amarante/Folha Imagem
Moradores da favela Real Parque invadem pista local da Marginal Pinheiros em protesto contra a reintegração de posse no local, causando congestionamento na via
Constituição da República Federativa do Brasil.
Preâmbulo
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
Capítulo II
Dos Direitos Sociais
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
A função do ator é saber fazer crer que uma caneta é uma guitarra...
Hoje apresentamos Roxo na sala dois do Teatro Fábrica. Tudo foi diferente, perspectiva diferente, cinco pessoas em um camarim improvisado de um por um. Outra peça, até que podia se chamar “Claustrofobia do Rock”. Mas foi legal, mesmo o baixo não funcionando, foi legal, legal não, foi do caralho! Todos ali na maior boa vontade, um público difícil, adolescentes superativos que reagiam a cada gesto com gritos e interações. Todo mundo segurou muito bem, a Júlia, eu e os caras. Estavamos praticamente sem nada, mas literalmente com tudo.
Hoje começo meu texto com uma frase de Oscar Wilde, “No momento em que um artista descobre o que as pessoas querem e procura atender a demanda, ele deixa de ser um artista e torna-se um artesão maçante ou divertido, um negociante honesto ou desonesto. Perde o direito de ser considerado artista”.
Vendo uma crítica da revista “Bacante” por Maurício Alcântara sobre o espetáculo “Les Éphémères” da CIA. Francesa “Théâtre du Soleil”, do qual tive a honra de assistir no mês passado, e sair com as mesmas sensações do crítico de que a pouco falei, uma pergunta me veio à mente quando li em sua crítica a comparação entre a grande CIA. Francesa e alguns “mitos do teatro brasileiro”.
Até que ponto o artista conserva sua essência, sua arte, sem se vender a um público ou patrocinador, para simplesmente dizer o que o povo quer ouvir?
As questões sempre ficam nas entrelinhas de um texto quase sempre inútil e provisório.
Como um dia disse Arrabal, “Não existe progresso no teatro; se existisse seríamos melhores do que Shakespeare”, embora os seus textos muitas vezes me soam de uma forma maçante, devido às muitas montagens mal interpretadas que vi nesses últimos anos, tenho de admitir sua grande genialidade, e tenho acima de tudo de concordar com o grande autor espanhol em dizer que o teatro está parado, e tomo a liberdade de acrescentar ainda que além de parado, o teatro se encontra calado em se tratando de suas verdadeiras funções sociais.
Eu encaro o teatro como um trabalho, não como hobby. Mas sei ser auto-crítico o suficiente para entender quando exerço meu oficio de uma forma inútil, porém necessáriafisiologicamente, mesmo que triste seja essa realidade. E você?
E para finalizar esse divagar também inútil, deixo aqui uma frase do grande Felline, frase esta que sempre me persegue e me atormenta... “Você existe apenas naquilo que faz.” ... onde você está existindo hoje?
Esse texto peguei do blog do Chico que pegou do Marião que é do Leo Lama...
“Meu pai morreu
Dia 19 de novembro é aniversário da morte do meu pai, escrevi este texto no dia em que ele morreu:19 de novembro de 99.
Meu pai morreu. Todo pai morre. Agora estou aqui pensando: o que foi que meu pai me deixou? Apartamento?Não. Carro?Nem uma bicicleta. Dinheiro? Ele não conseguia pagar nem as próprias contas. Mas pagava a dos filhos. Roupas? Só um chinelo velho, mas meu pé é maior. Sem testamento, sem herança, sem nada? As peças. As peças de teatro? De quem são as peças de teatro? Meu pai era escritor. Escritor de teatro. Teatro? Teatro dá dinheiro. Tem gente que escreve peça pra ganhar dinheiro. Não, meu pai não. Não ganhou muito dinheiro com teatro. O que ganhou, gastou. Deu dinheiro pra muita gente. Meu pai não era um bom administrador. Era um “maldito”, diziam, um “marginal”, mas não era bandido. Por que ele era maldito, afinal? Será que não pensava nos filhos? Por que não escreveu peça pra ganhar dinheiro? “Ninguém tem direito de pedir a um artista que não seja subversivo.”. Meu pai escrevia sobre puta e cigano sem dente. Puta, cigano sem dente e cafetão. Puta, cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. Puta e cigano sem dente? Puta, cigano sem dente e cafetão é chato, porra! Puta, cigano sem dente e presidiários não dava dinheiro. Puta, cigano sem dente e desempregados não tinha “patrocínio”. Mas eu queria tênis americano, eu queria camisa Lacoste, camisa Hang Ten. Meu pai tinha que ganhar dinheiro. Por que ele insistia em escrever peças sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários? Ele insistia. Puta, cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. E o ator e Jesus Cristo e nada de “comédia comercial”. Mas eu queria o meu “All Star”, eu queria ter todos os discos dos Beatles. “Pai, me dá dinheiro pra comprar uma guitarra!” E eu tive, eu tive a tal guitarra, eu comprei todos os discos dos Beatles com o dinheiro dele (depois tive que comprar tudo de novo em CD com o meu dinheiro e agora dá pra baixar de graça na internet). Calça boca fina, camisa Hang Ten. Onde ele arrumava dinheiro? Onde ele arrumava dinheiro pra me comprar tênis “All Star”? Ele achava que isso era “lixo americano”. Ele achava que essa merda importada só servia pra aumentar a nossa alienação. Meu pai era generoso. Ele não ia deixar de me dar uma coisa que eu queria, só porque ele achava que o que eu queria era imposto pela sociedade de consumo. Ele tentava me orientar, mas respeitava minha opinião de adolescente alienado. Onde ele arrumava dinheiro? Era época de ditadura. Escrever sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários, incomodava os “poderosos”. Porra, ainda mais essa! Já escreve sobre coisa que não dá dinheiro, mas além de não dar dinheiro, ainda é proibido? “Pai, me dá dinheiro pra comprar disco do Bob Dylan!”. Meu pai fez novela, fez Beto Rockfeller. Mas Beto Rockfeller não conta, Beto Rockfeller era A novela, tinha a cara dele, era revolucionária. Ele fazia o Vitório, o melhor amigo do Beto. Ele ganhou um dinheiro, me comprou um tênis, uma guitarra, um... Mas A novela era na Tupi. A Tupi faliu. Meu pai foi fazer novela na Rede Globo: “Bandeira 2”. Mas a Globo é no Rio, o Rio tem praia, ele cabulava as gravações e ia pra praia: “Novela é chato pra caralho, porra! O direito da gente coçar o saco é sagrado.”, ele dizia. Ele ia pra praia e lá ficava indignado porque naquela época a Globo não punha negros nas novelas e quando punha era nos papéis de escravo ou mordomo. Meu pai escreveu no jornal “A Última Hora” do Samuel Wainer, onde ele trabalhava, que a Globo botou a Sônia Braga dois meses tomando sol pra ficar escura, em vez de chamar uma mulata pra fazer “Gabriela”. A Globo não gostou. Os “poderosos” da Rede Globo não gostaram. Fizeram ameaças, juraram de morte. Em fim, a Globo não dava mais. Quando ele tava por lá, ele bem que quis escrever novela. Afinal, eu queria dinheiro pra comprar tênis, disco, guitarra. Mas novela de puta, cafetão e cigano sem dente? Não, novela de puta, cafetão e cigano sem dente não dá. Se fosse cigano com dente, musculoso e mau ator, aí dava. Agora, cigano sem dente, pobre e fudido, não dá. Então não dá. “Na televisão brasileira, artista estrangeiro morto trabalha mais do que artista brasileiro vivo.” Tudo bem, não podia fazer peça de puta porque a ditadura não gostava, não podia novela de cigano pobre, fudido e sem dente porque a T.V. não queria. Então o que que podia? Não podia nem chamar a Rede Globo de racista, nem nada. A sinopse que ele fez pra uma novela quando finalmente a Globo chamou ele, era de uma tribo de ciganos que estupravam as filhas dos empresários e...bem, não aprovaram. E as portas iam se fechando. E a ditadura ali, descendo o cassete. E eu queria o meu tênis “All Star”! “Pai, porra, pai, eu quero dinheiro pra comprar time de botão!” Mas enquanto os “poderosos” iam dizendo: Não! Não! Não! Ele ia ganhando o respeito dos humildes de coração, um “povo que berra da geral sem nunca influir no resultado”, um povo fudido, os marginais, as putas, os ciganos sem dente, os presidiários, um povo que não aparecia na T.V. “Pobre na Rede Globo almoça e janta todo dia”. Pobre na Rede Globo tem dente, favela na Rede Globo não tem rato. Esse povo não era o povo dele. O povo dele era entre outros, os sambistas, não esses de agora, de terno Armani, cercados de loiras recauchutadas, mas, os sambistas das escolas de samba de São Paulo. Os sambistas marginalizados, os que nunca gravaram CD. O Zeca da Casa Verde, o Talismã, o Jangada, o Toniquinho Batuqueiro, o Geraldo Filme, enfim, os que morrem na merda. “Silêncio, o sambista está dormindo, ele foi, mas foi sorrindo, a notícia chegou quando anoiteceu...”. Então a solução era fazer show com os sambistas. Meu pai contava histórias e os sambistas cantavam suas músicas. Mas os sambistas eram crioulos. Negros? Negro não podia. Em plena ditadura, Plino Marcos e “a negrada”? Que papo é esse? Poder, podia, mas ninguém queria ver. “A burguesia não me quer”, ele dizia. Não podia peça de puta e novela de cigano sem dente pobre e fudido, não podia dizer que a Globo era racista e ninguém queria ver show com “a negrada”. Então o que que podia? “Pai, me dá dinheiro pra comprar figurinha do álbum Brasil Novo!” A ditadura quando eu tinha 7 anos tava em todo lugar, em cada esquina, no meio de cada casal que fazia “amor com medo”, nos porões do Doicodi e nas torturas atrozes que muitos sofriam e eu lá: “Pai, me leva na Expoex, pai, me leva na Expoex! A Expoex é a exposição do exército! Eu quero ver os soldados, pai! Eu quero ver os tanques!” E ele me levava. Senão eu chorava. Eu chorava se eu fosse censurado e não pudesse ver a Expoex. Quando eu tinha uns 12, 13 anos, lá estava o ônibus da escola pronto pra partir pra Porto Seguro com todos os meus amiguinhos dentro e os pais, do lado de fora, dando tchauzinho. E um amiguinho meu perguntou: “Quem é seu pai?” Eu não tive dúvida: “Meu pai é aquele!” E o meu amiguinho: “Aquele de terno e gravata? Aquele que tá conversando com o meu pai?” E eu: “É, aquele.” O meu amiguinho gritou: “Pai, esse aí é o pai do Leo!” E a professora ouviu. Não, meu pai não era aquele de terno e gravata. Meu pai era outro. Era o que todo mundo tava chamando de mendigo. Meu pai era aquele de macacão e chinelo! Gordo de macacão e chinelo! “O pai do Leo é mendigo, o pai do Leo é mendigo!” Afinal, quem trabalha tem que usar terno e gravata. Naquela época, um moleque de 12, 13 anos, era um tapado. Ou isso era característica minha? “Pai, por que você não trabalha? Pai, por que você dorme até meio dia? Pai, por que o pai do Paulinho tem carro e você não? Por que você chega de madrugada em casa? Pai, por que você anda de macacão e chinelo? Pai, me dá dinheiro pra comprar...” E o meu pai me dava dinheiro. Eu estudava em escola de “burguês”. Eu estudei nas “melhores escolas”. E olha que o meu pai odiava escola. “A cultura nas mãos dos poderosos constrange mais do que as armas; por isso, a arte e o ensino oficiais são sempre sufocantes”, ele dizia. Ele saiu da escola na 4ª série do primário. Ele era canhoto. Na escola, as professoras o obrigavam a escrever com a mão direita. Ele fugiu da escola, ele sempre foi da esquerda. Era chamado de analfabeto. Com 21 anos escreveu “Barrela!”. “Me chamavam de analfabeto, como se isso fosse privilégio meu, neste país.” Meu avô queria que ele trabalhasse no Banco do Brasil, mas ele queria é subir num banco no meio da praça e fazer números de palhaço. A família chegou até a pensar que ele era débil mental. Meu pai foi pro circo. Ele amava o circo. Foi ser palhaço de circo. Era o palhaço Frajola. A escola dele era o circo, a minha era escola de “burguês”. Mas como ele pagava a minha escola? Foi preso, foi solto, ameaçado, escrevia em jornais e revistas, quase todos que existiam. Foi despedido de todos. A censura não queria meu pai escrevendo em lugar nenhum. O que fazer? Sair do país? Ele não falava direito nem o português. O que fazer? “Pai, me dá dinheiro pra comprar uma calça Soft Machine!”. Uma vez o meu pai tava com uma dívida muito grande, tava com dificuldade de pagar as prestações de um apartamento que ele comprou pra gente. Daí um belo dia a Ford ligou pra ele, convidando pra fazer um comercial. Era uma puta grana, dava pra pagar as dívidas e ficar bem tranqüilo por uns tempos. Meu pai não fazia comercial. Foi vender livro na rua. Nas portas dos teatros, nas portas das faculdades, nos bares. Foi vender livro na porta de teatros aonde se apresentavam artistas piores do que ele. Ele mesmo editava os livros, ele mesmo ia vender. E podia? Não. Não podia. Várias vezes ele foi expulso pelo “rapa” como um camelô comum. E ele chorava? “Perseguido, o caralho! Eu não sou nenhum mosca-morta. Eu fiz por merecer. Fui uma pessoa que aproveitou bem a fama. Eu apedrejei carro de governador, quebrei vidraça de Banco. Foi uma farra. Não teve mau tempo.” Tinha. Tinha mau tempo, mas ele não reclamava, eu nunca ouvi o meu pai reclamando da vida. Eu nunca ouvi o cara dizer que a vida tava difícil, ou que era “foda”. Não. Ele só reclamava das injustiças. Ele berrava contra as injustiças, os preconceitos, a apatia. Meu pai é o Plínio Marcos, porra! Bela merda, tem gente que nunca ouviu falar. Pra muitos era só um fudido que não deu certo na vida, andando feito mendigo pelo centro da cidade. Já morreu. Não era melhor do que ninguém. (Não?) “Tudo se consegue com esforço; não se chega a lugar nenhum sem caminhar.” Com 15 anos eu quis sair da escola. Ele disse: “Sai logo dessa merda, eu te sustento até você encontrar sua vocação!” Eu saí, eu saí daquela merda na metade do 1º colegial. Acho que qualquer ser humano com o mínimo de sensibilidade, sabe: o ensino do jeito que é, faz mal pra saúde. Eu devia ter uns 17 anos, era de madrugada. Eu morava com ele. Eu tava na mesa da sala com o violão, triste, querendo encontrar a minha vocação, sem saber o que dizer, inibido, pensando em todos os artistas que eram muito melhores do que eu. Meu pai levantou pra tomar água, me viu ali, não disse nada. Foi até o escritório, voltou com um livro e leu um poema pra mim. “O corvo” do Edgar Allan Poe. Não disse nada, só leu a poesia. Não foi o conteúdo, foi o tom da voz dele, aquela voz doce que ele tinha. Ele declamava e eu ouvia como se ele me pegasse no colo. Foi dormir e me deixou ali, ouvindo o corvo dizer: “para sempre!”. Eu virei escritor, com 21 anos escrevi “Dores de Amores”. Meu pai era um incentivador, idolatrava os filhos. Queria ser mergulhador só porque o Kiko, meu irmão, é. A Aninha, minha irmã, era tudo pra ele. Eu fiz vários shows com ele, pelas faculdades, pelos teatros, pelos bares. Ele contava histórias e eu tocava violão. Meu pai era generoso, violento, essencial, amava, amava tanto as pessoas que chegava mesmo a odiá-las. Lutava, berrava e me acordava. Meu pai não me deixou apartamento, carro, dinheiro, bicicleta. Nem o chinelo dele me serve. Eu tive e tenho que ganhar o meu próprio dinheiro. Até hoje, muito pouca gente quer montar as suas peças e muito pouca gente quer assistir. Meu pai já não precisa mais vender livro na rua, pra quem não quer comprar, ou pra quem compra só pra “ajudar”. O que eu mais queria é que ele me ouvisse agora: “Pai, você não me deixou nada que se possa enxergar. Nem carro, nem apartamento, nem bicicleta, nem chinelo. Me deixou a sua indignação, um pouco do seu temperamento, a lembrança de ver você acordando todo dia com uma puta força de vontade, com uma puta vontade de viver, sempre alegre, sempre fazendo piada das próprias desgraças, sempre dando tudo que ganhava pros filhos, sem nunca acumular porra nenhuma.” E se ele me escutasse ele diria, com um sorriso malandro sem dentes, segurando as lágrimas: “Ê, Leo Lama!” Meu pai não sabia receber elogios. Mas se ele me ouvisse agora, eu diria: Pai, eu preciso te contar, no seu velório foi muita gente, pai. No seu velório, estiveram os maiores artistas do país. Médicos, políticos, advogados, empresários, fãs, gente do povo, crianças e os sambistas. Os sambistas cantaram sambas em sua homenagem, pai. Suas mulheres, seus amigos, seus inimigos, todos nós, todos nós te aplaudimos quando o seu caixão foi colocado em cima do carro de bombeiro. Eu tava segurando uma aba, o Kiko outra. Você foi cremado, pai. Seus amigos fizeram discursos emocionados, disseram: “Plínio Marcos, um grito de liberdade!” Nós jogamos suas cinzas no mar de Santos. Na ponta da praia, onde você passou sua infância. O Jabaquara, seu time, ficou na porta do pequeno estádio, uniformizado, com a mão no coração, vendo o cortejo passar. O povo na areia batia no surdo e entoava um canto mudo no crepúsculo santista e nós no barco deixávamos você escorrer pelos nossos dedos como se você nem tivesse existido. Eu ainda quis te achar no meio do mar, mas de repente já era só o mar. E você foi, como todo mundo vai. É isso aí, pai: tanta gente te amava. Você sabia? Acho que ninguém te amou tanto como a minha mãe. O amor dela ecoa em mim. Mas, e eu, pai? E eu? Será que eu vou ter a mesma fibra que você? Eu não gosto de viver como você gostava. Eu não tenho a sua coragem. “A poesia, a magia, a arte, as grandes sabedorias não podem habitar corações medrosos.” Eu acho que eu vou me vender, pai, eu acho que eu já sou um vendido. Eu só queria ser essencial, essencial como você. É difícil. Eu reclamo. A vida tá uma bosta! Tá difícil de encontrar pessoas essenciais, pai. As pessoas só falam e pensam no que é supérfluo. Eu não tenho assunto. Eu me sinto sozinho. Eu não sei sobre o que escrever. O mundo tá se destruindo, tem muita gente fudida, tem muitas festas e muita fome. Que indecência, pai, que vergonha que eu sinto desse tempo que eu vivo. Eu sei que você não tem saco pra choramingo, pai, mas me deixa desabafar, pai, só hoje, me deixa te falar sobre o sonho dessa gente, você sabe, essa gente, os “homens-pregos”, fixos no mesmo lugar. Essa gente quer ter carro, pai, casa com piscina, essa gente quer ser rica e famosa, essa gente quer ser musculosa e quer ter bunda, essa gente diz que acredita em Deus e fode ele, essa gente não quer ser essencial, pai, essa gente... essa é a minha gente, pai, às vezes eu me olho no espelho e me acho parecido com essa gente. Me perdoa.
Um beijo do seu filho, Nado, que ainda usa o nome artístico que a gente inventou juntos: Leo Lama”
A luz néon tomava conta do pequeno espaço, fazendo dos corpos pequenos borrões esbranquiçados em meio à tela escura da pequena boate de beira estrada. A música era alta, o que fazia com que as vozes sumissem, acho que propositalmente, pois os interesses se tornavam desde a entrada cada vez mais físico, somente físicos. O porque abrir a boca e estragar a mágica que tomava conta do pequeno e úmido espaço negro? Sentei-me em um pequeno sofá de dois lugares, mas que eram ocupados por três garotas e um vira-lata. Insaciáveis, pareciam insaciáveis, mas é lógico que ao chegar mais perto, via-se em seus olhos o desespero e a esperança de que ali, sentasse-se um homem, ou melhor, um príncipe que as levasse para um mundo onde não existisse néon e nem música alta, só um mundo de silêncio... No canto, estava ela, quase sumindo, não fosse pelo seu sorriso que tomava conta do lugar e assim fazia dele um lugar quase santificado. Uma santa com olhos lascivos e sorriso ingênuo formando uma mistura de Kahlo e Bosch em um enredo sadeano. Aproximei-me de uma forma brusca, e embalado ao velho tango de Gardel a arrastei para o centro daquele mundo... O cheiro de cravo saia de sua garganta como que fogo, me ardendo os olhos e a alma. Dançamos quase que a noite inteira... Quando amanheceu, e a luz adentrou pelas frestas do telhado danificado, pude notar que a santa era incompleta, não tinha os braços, mas que seu sorriso era realmente inesquecível. Como pude dançar a noite inteira com uma mulher, sem notar a falta dos seus braços? Nesse momento não tive dúvidas de que ela era a mulher da minha vida... Passaram-se anos até que me perguntasse o porque a escolhi em meio a mulheres perfeitas... Eu olhei em seus olhos aguados e disse. Porque você é linda...
Acordei de um sonho absurdo, decidido a comprar meu respiro.
Encontrei de tudo.
Pessoas vendendo os cabelos para os fazerem crescer novamente.
Pessoas vendendo viagens, sem nunca terem saído do estado.
Comunistas vendendo seus “All Stares” e suas camisas da Zoomp com a fronte do Che.
Grandes comerciantes vendendo óleo nacional a preço de importado, milagres importados e com impostos.
Imagens compradas que compram os princípios deturpados de pequenos prostitutos ignorantes.
Pais vendendo filhas e filhos para viajantes órfãos.
A fé sendo vendida em fitas e frascos.
Pessoas com seus rins nas mãos, oferecendo a preço de fábrica.
A fé que você acredita, é a que todos os outros deveriam acreditar. Enfim, você acredita na única verdade.
Pessoas que nascem e morrem junto com seus ídolos de cada novela.
Pessoas que se contentam em ser apenas mais um número de celular da vivo, não vale se não for pequeno...
Antes, grande moral, grande pau. Agora, pequeno burguês marginal e seus celulares animal.
Filhos que vendem os alicerces da família atual, suas tvs de plasma, para enfim conseguirem a sobriedade em meio a essa feira de espécies plastificadas.
A única coisa que eu não achei foi meu Valium com a carinha da courtney love, edição limitada.
Ela quase sempre chegava com cuidado, sem fazer barulho na porta para não me acordar, mas quase sempre era inútil, já estava acordado. Ficava deitado na cama esperando que me abraçasse para que enfim pudesse dormir sossegado. Seu cheiro era dos mais variados, perfumes, cigarro, bebida e fritura, as vezes bala de fruta, só às vezes. Tirava o salto para não fazer barulho, e na ponta dos pés ia saltitando de maneira quase engraçada até o banheiro, lavava o rosto, tirava a maquilagem pesada, usava creme anti-ruga, e se maquilava novamente, só que agora mais leve. Era aconchegante quando me acalentava com seus braços. O cheiro de cigarro, bebida, creme anti-ruga, fritura e às vezes bala de fruta logo tomava conta do quarto, e eu fingia dormir, enquanto ela chorava em silêncio. Eu esperava ela dormir, para entrelaçar meus dedos em seus cabelos negros e macios, embora engordurados. Ficava horas acariciando seus cabelos, e meus olhos estalados e secos quase não se moviam diante às imagens subliminares da marca embolorada do teto, homens, mulheres, monstros, cachorros e latidos. O silêncio tomava conta do pequeno quarto úmido, e às vezes não conseguindo dormir, fechava os olhos para aguçar os ouvidos e os sintonizava com músicas e sons imaginários... Então eu dormia com a esperança de acordar e talvez continuar sentindo o cheiro de perfume, cigarro, bebida, fritura e se eu desse sorte, laranja...
Está dando pra notar a diferença visual da cidade, desde que nosso magnífico prefeito, implantou o projeto cidade limpa. Já podemos enfim, passear com nossos amáveis cachorrinhos penteados pelas calçadas. Já não precisamos mais desviar daqueles animais imundos e sem o mínimo de civilidade. Obrigado senhor prefeito por trazer o mínimo de conforto para nós, pessoas honestas e trabalhadoras. Se conseguir um tempinho, passa aqui em casa para jantarmos juntos, eu, você e meu marido, que humildemente agradece sua preocupação para conosco, pessoas de bens.
Ontem eu soube por algumas vizinhas, que queimaram mais dois mendigos, eu ainda acho pouco. Peço-lhe humildemente um forno crematório como o de Auschwitz aqui para região central. Pois poupariamos tempo se queimássemos em massa, ao invés de um a um. A propósito, ontem vi seus oficiais executarem o serviço lindamente, limparam minha calçada como no tempo do grande ditador, que Deus o tenha.
Afinal, o que seria de nós sem almas boas e compulsivas por limpeza como a do senhor.
Sem mais, expeço meu humilde agradecimento.
QUEM SE DEFENDE
Quem se defende porque lhe tiram o ar Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo Que diz: ele agiu em legitima defesa. Mas O mesmo parágrafo silencia Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão. E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre Não lhe é permitido se defender